MEMORIAL
Nasci caçula, em uma família pequena. Terceiro filho de pais carioca e mineira, respectivamente. Ele, um faz tudo: vendedor de seguros, dono de gráfica, chefe de departamento de pessoal, sindicalista, juiz classista, e até seus 80 anos, voluntário de causas diversas. Ela, para orgulho e realização próprias, funcionária aposentada – após 38 anos e seis meses – da Rede Ferroviária Federal. Desde sempre ouvi dizerem-me que fui “programado” para fazer companhia e cuidar de meus pais quando estes se tornassem idosos. Neuras analisadas, dei conta – e muito bem – do recado. Até mudarem ambos de prateleira.
Tive, assim como meus irmãos, formação feita com investimentos acima das posses da família – classe média, média nos anos setenta: fusca café-com-leite, férias, ano sim-ano não, em Guarapari; e prioridades “filhos formados” e um dia “a casa própria”.
Herdei de minha mãe uma lucidez insana: sou que sou e estou onde estou, porque trilhei este e aquele caminho. De meu pai recebi a inquietação, a curiosidade e, a vontade de ajudar, fazer mudar, tornar melhor – com aquilo que sei ou aprendo – o mundo onde vivo.
Estudei em colégio cristão, por 12 anos seguidos. Saí de lá com boa educação, base sólida e uma culpa enorme: adestrado para ser católico, peco por pensamentos, atos, palavras e omissões. O Colégio Imaculada Conceição – que meus pais passavam “um dobrado” para pagar – me deu também o gosto pelas atividades sociais, o convívio em grupo e, ainda, pelo “participar fazendo”. Lá as comemorações e eventos eram construídos, conjuntamente, por freiras, pais e alunos.
Comecei a trabalhar bastante cedo, para os padrões atuais. Doze anos. Unicamente porque assim o queria, para ter “o meu dinheiro”. E tão somente porque as atividades escolhidas não envolviam riscos (D. Onça, minha mãe, era uma progenitora ligada em tempo integral) ou me ocupavam por demais: na minha família, gente em crescimento tinha três responsabilidades: cuidar do seu espaço, do seu corpo e da sua cabeça. Assim, a norma era: use tudo que é seu e depois guarde; escove os dentes, tome banho e não se esqueça de lavar atrás das orelhas. E leia um livro por semana (e depois escreva uma composição dizendo daquilo que leu).
Retomando minhas atividades profissionais precoces, vendi jornal e revista no sinal de trânsito (coisa tranqüila na época), livros na papelaria que se instalava numa das salas do colégio no período das matrículas e mais umas semanas depois do início das aulas. Fui entregador do supermercado, panfleteiro e porteiro de teatro em matinê infantil de domingo.
No Colegial comecei a me interessar por movimento estudantil, D.A. e política, daí larguei o comércio – que até então havia me rendido uma calculadora Casio (gigante se comparada com os modelos atuais), um LP branco do Egberto Gismonti e um tênis All Star, importado, que foi usado até o limite do imaginável… Fui do diretório acadêmico do Colégio Promove, em Belo Horizonte, nos anos de 81 e 82. Das ações daquele grupo de alunos, a mais importante foi promover debates entre candidatos políticos, que apresentaram suas plataformas de trabalho, ouviram mil perguntas e reivindicações dos estudantes (passe-livre já estava na agenda da moçada) e fizeram muitas, muitas promessas que até hoje não vi cumpridas.
Em 1982 filiei-me ao Partido dos Trabalhadores, que havia fazia pouco se instalado em Belo Horizonte. Levei comigo daquele solene contrato – assinei lá uns papéis que julguei importantíssimos – carteirinha com foto, estrelas vermelhas, panfletos com projetos de gestão democrática e um jeito de pensar diferente. Em verdade, enxergar o “País que vai pra frente” com um outro olhar, foi coisa iniciada pelo professor de Geografia, René, uma criatura sem apego ao convencional e a coerência, tagarela, que lastimava todos os dias dentro da sala de aula o fato de muitos dos seus alunos ricos já haverem visto a tundra, os fiordes e os corn e cotton-belts americanos de perto, e, com isso, acharem a sua disciplina “o cocô do cavalo do bandido, pisado”. Entre os sermões do professor para os colegas, pouco aprendi de geografia – fiz essa parte lendo os livros em casa. Ao invés disso, na escola, comecei a entender o que era cidadania, participação popular, força trabalhadora, democracia, direitos e deveres das pessoas. Não gostei da política no partido político: enquanto estive por lá, muito mais se brigava para saber que era mais esquerda e vermelho que o outro, que se discutia o que e como fazer melhor a vida e o dia-a-dia da população. Por isso larguei mão de ser politiqueiro.
Mineiros dizem daquilo que lhes é vital, paixão, impensável de viver-se sem, como sendo “a sua cachaça”. Pois então, a minha cachaça se chama participação popular. Atende também por movimento social, democrático, vida pública… Em função desse interesse, por muitos participei, ora como representante de algum grupo social, ora como gestor público, ou, ainda, voluntário, das rodadas do orçamento da habitação, do orçamento participativo, das comissões regionais de transporte e trânsito da BHTRANS, e por último do Orçamento Participativo Digital – que hoje, assim como projetos de governo eletrônico, é o que me desperta e aguça a curiosidade.
Sou de uma geração criada na frente da televisão. Vi – e viram meus pares – gente sendo morta ou exilada, a Apolo 11 chagar até a lua, a Tropicália acontecer, o Brasil ganhar a copa do mundo e os militares venderem o seu milagre econômico. Sou testemunha da volta daqueles que partiram num rabo de foguete, e, do mico do Gabeira (salve, salve Gabeira!) usando tanga de crochê em Ipanema. Sou fã do Henfil e do Betinho. Tem anos que colaboro nas empreitadas da turma do “Fome Zero”.
Fui criado para seguir um dever-ser que se perdeu no meio do caminho. Era para eu crescer, ter sucesso profissional, fama, casar e fazer filhos… Mas no meio do caminho havia um certo René Trindade, um Partido dos Trabalhadores e pessoas que respeito, admiro, tenho por exemplo: Sandra Starling, Eduardo Mota, João Batista dos Mares Guia (irmão do Walfrido…), Luis Dulci – que era também brilhante e importante líder sindical da educação. D. Helena Greco, Frei Beto, Patrus Ananias – meu professor de Direito e depois “meu Prefeito”. Calhou também da natureza fazer sua parte: sou avesso a injustiças, tenho intolerância ao bom e ao certo impensados, e gosto de gente. Mais que qualquer outra coisa nesse mundo… Convivência é ar para mim. Com as oportunidades que tive de aprender com essa boa turma, com a vontade de fazer e participar da vida como um bem comum, escolhi o voluntariado. Quando há chance faço dessa maneira a parte que me cabe.
Sou casado, com um cara bacana. Companheiro de muitos anos, leal e, sobretudo, amigo. Presente de Deus na minha vida (Sim, Deus. E na versão não católica, por favor!). Um homem ético, trabalhador, que pensa a vida de uma maneira muito próxima da minha (sou da turma que sai fazendo e ele é da que pensa, e reflete, e analisa, e pondera, e…). Tenho, além de um companheiro que a lei não reconhece como tal e ainda tripudia dos direitos que temos como cidadãos, uma filha. Informalmente adotada.
Ana Luisa, que me escolheu como pai e me comunicou disso lá na sua infância, vive com sua mãe, em Belo Horizonte. Minha filha é uma adolescente quase típica – o quase fica por conta de sua absoluta paixão pela MPB e autores e intérpretes da primeira metade do século passado; coisa que não combina com seu visual rock industrial (maquiagem pesada, tachinhas nas roupas escuras e coisa e tal). Aos meus olhares de espanto, responde: “prefiro assim pai, não me cai bem a justeza e o desconforto das roupas das cachorras do funk”!
Vivo atualmente em Brasília, onde trabalho em um projeto de governo eletrônico. Para agora tenho muito vontade de estudar música e teatro. E também religião. Para daqui um tempo vou lecionar: serei voluntário em um curso de alfabetização de idosos. Coisa bacanérrima, emocionante, e, gratificante. Ler e escrever foi o que de mais importante me ensinaram até hoje. È pela letra que me coloco no mundo. E cabe a mim dividir essa generosidade da vida – assim como as demais – com outros.
Muito prazer em conhecer você. Meu nome é Cláudio. Cláudio Moreira dos Santos. À minha frente estiveram Maria José e Saint-Clair, Maria de Lourdes e Pedro; Flober e Helena. Comigo estão Sílvio, e Ana Luisa. Nossas famílias, os amigos. E Deus.